por Marina Aemi Sesarino

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Insônia

   Mesmo caindo de sono, Anita não conseguia dormir. O calor infernal a impedia de fazê-lo. Sua pele suava e coçava. Irritada, tentou desgrudar os cabelos do pescoço, ambos suados, mas foi em vão. Já havia chutado o lençol para o chão e se revirava na cama, tentando achar uma posição confortável. A boca e a garganta estavam muito secas, mas ela relutava em ir à cozinha pegar um copo d'água. Além disso, o tic-tac do relógio a atormentava profundamente. Agora os ponteiros marcavam quatro horas da manhã. Quanto mais olhava o relógio, mais nervosa ficava. Isso era comum de acontecer, e em dias de aula era pior ainda, pois sabendo que tinha um horário para acordar, de manhã mesmo, a ansiosidade aumentava e aí sim que ela não dormia. Ainda bem que era sábado e não teria aula. Mas os acontecimentos do dia repassavam em sua cabeça contra a sua vontade e também contribuíam para que não dormisse; A conversa séria que o pai tivera com ela sobre uma possível mudança para uma casa menor, pois não estava dando conta de pagar o aluguel; o boletim,  que antes vinha com notas tão boas, agora ameaçava reprová-la de ano; e ainda tinha a mudança de colégio. Ela realmente não se importava muito em sair de lá, pois não gostava e nem detestava o colégio, do mesmo modo que era indiferente à maioria dos colegas. Apenas ia para as aulas e estudava, nada de mais. O problema mesmo seria enfrentar um colégio novo, com pessoas e professores novos. Onde ela estudava agora conhecia todos da sala desde pequenos e eles haviam aprendido a respeitá-la, a respeitar seu silêncio e seu mundo fechado, sem querer invadir sua privacidade e aceitando o fato de ela não interagir com eles. Anita não conseguia nem se imaginar estudando com pessoas estranhas que viessem com perguntas, querendo saber de sua vida. 
    Dando-se por vencida levantou da cama, sentindo o chão gelado a seus pés, desceu as escadas e foi à cozinha assim, descalça mesmo. Os olhos doeram ao acender a luz e esperou até que se acostumassem, antes de abrir a geladeira. Serviu-se de um grande copo de água gelada e bebeu avidamente, aliviada, sentindo o líquido descer refrescando sua garganta. A louça da janta ainda estava na pia, esperando para ser lavada. Caprichando no detergente, Anita ensaboou cada prato e cada copo a ponto de eles quase escorregarem de sua mão. Olhou o relógio da cozinha: cinco horas da manhã. Ainda bem que era sábado e não tinha aula. Agora ela podia escutar alguns pássaros cantando, apesar de ainda estar escuro. Foi para a sala, abriu a gaveta e pegou o baralho. Sempre que não tinha nada para fazer ela separava o baralho por naipe e em ordem crescente, como se estivesse conferindo se está completo. Ela sabia que estava completo, mas separá-lo era uma coisa que ela gostava de fazer, pois ocupava o tempo e a mente. Aos poucos, enquanto mexia habilidosamente nas cartas, o dia foi clareando. Já havia desistido de dormir, por isso ligou a televisão e deitou no sofá, esperando os desenhos animados começarem. E, em algum momento, Anita dormiu.

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