por Marina Aemi Sesarino

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Aos olhos de uma criança

Às vezes parece que as pessoas perderam a admiração pelo mundo. Na verdade, elas perderam realmente. Eu digo que perderam porque todos já tivemos, um dia, uma grande admiração por tudo o que está ao nosso redor. Tudo mesmo. Não se lembra? Observe um bebê. Veja os olhos dele arregalados observando as pessoas, as árvores, os carros e as próprias mãos. Veja como os bebês, impressionados, olham um cachorro. O mundo é novo para eles; tudo é novo.
(...)


Continuação em: http://olhosalados.blogspot.com/2012/02/foto-marina-aemi-sesarino-as-vezes.html

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Costurando Palavras

Foto: Marina Aemi Sesarino
Vim regar o meu recanto para ver se ele floresce. Com palavras que transbordam de mim e preenchem meu vazio; com sentimentos que brotam de algum lugar da minha alma e que crescem à medida que escrevo.
Os frutos ofereço a todos que quiserem experimentar e usar as sementes para plantá-las em outro lugar.
Vou costurando palavras, formando um tecido estampado de sentimentos; e compartilho com vocês essas vestes para que provem.
Escrever é isso.  É misturar sentimentos com pensamentos, juntando as letras como miçangas em um colar, e costurando cada palavra cuidadosamente. É oferecer aos outros a sua criação e despertar neles tudo aquilo que dormia. Escrever é acordar, é cultivar, é compartilhar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Insônia

   Mesmo caindo de sono, Anita não conseguia dormir. O calor infernal a impedia de fazê-lo. Sua pele suava e coçava. Irritada, tentou desgrudar os cabelos do pescoço, ambos suados, mas foi em vão. Já havia chutado o lençol para o chão e se revirava na cama, tentando achar uma posição confortável. A boca e a garganta estavam muito secas, mas ela relutava em ir à cozinha pegar um copo d'água. Além disso, o tic-tac do relógio a atormentava profundamente. Agora os ponteiros marcavam quatro horas da manhã. Quanto mais olhava o relógio, mais nervosa ficava. Isso era comum de acontecer, e em dias de aula era pior ainda, pois sabendo que tinha um horário para acordar, de manhã mesmo, a ansiosidade aumentava e aí sim que ela não dormia. Ainda bem que era sábado e não teria aula. Mas os acontecimentos do dia repassavam em sua cabeça contra a sua vontade e também contribuíam para que não dormisse; A conversa séria que o pai tivera com ela sobre uma possível mudança para uma casa menor, pois não estava dando conta de pagar o aluguel; o boletim,  que antes vinha com notas tão boas, agora ameaçava reprová-la de ano; e ainda tinha a mudança de colégio. Ela realmente não se importava muito em sair de lá, pois não gostava e nem detestava o colégio, do mesmo modo que era indiferente à maioria dos colegas. Apenas ia para as aulas e estudava, nada de mais. O problema mesmo seria enfrentar um colégio novo, com pessoas e professores novos. Onde ela estudava agora conhecia todos da sala desde pequenos e eles haviam aprendido a respeitá-la, a respeitar seu silêncio e seu mundo fechado, sem querer invadir sua privacidade e aceitando o fato de ela não interagir com eles. Anita não conseguia nem se imaginar estudando com pessoas estranhas que viessem com perguntas, querendo saber de sua vida. 
    Dando-se por vencida levantou da cama, sentindo o chão gelado a seus pés, desceu as escadas e foi à cozinha assim, descalça mesmo. Os olhos doeram ao acender a luz e esperou até que se acostumassem, antes de abrir a geladeira. Serviu-se de um grande copo de água gelada e bebeu avidamente, aliviada, sentindo o líquido descer refrescando sua garganta. A louça da janta ainda estava na pia, esperando para ser lavada. Caprichando no detergente, Anita ensaboou cada prato e cada copo a ponto de eles quase escorregarem de sua mão. Olhou o relógio da cozinha: cinco horas da manhã. Ainda bem que era sábado e não tinha aula. Agora ela podia escutar alguns pássaros cantando, apesar de ainda estar escuro. Foi para a sala, abriu a gaveta e pegou o baralho. Sempre que não tinha nada para fazer ela separava o baralho por naipe e em ordem crescente, como se estivesse conferindo se está completo. Ela sabia que estava completo, mas separá-lo era uma coisa que ela gostava de fazer, pois ocupava o tempo e a mente. Aos poucos, enquanto mexia habilidosamente nas cartas, o dia foi clareando. Já havia desistido de dormir, por isso ligou a televisão e deitou no sofá, esperando os desenhos animados começarem. E, em algum momento, Anita dormiu.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Apreciando a vida

   De pé, em frente ao mar, ela olhava o horizonte; os primeiros raios de sol começavam a surgir. O risco laranja contrastava com o azul escuro do oceano, e, um pouco mais acima, o céu começava a ficar roxo.
Fechou os olhos; a leve brisa matinal acariciou seu rosto, balançou seus cabelos e brincou com sua franja. Sobressaltou-se ao sentir, de repente, uma onda gelada cobrindo seus pés. Os pelos da sua nuca se arrepiaram e ela abriu os olhos, a tempo de ver a onda arrastando-se para o mar.
Foto: Luissilveira
   O céu clareava rapidamente e Anita observava, emocionada, as múltiplas cores que se formavam antes que o azul tomasse conta de tudo; anil, roxo, rosa, vermelho, laranja, amarelo. Como se alguém desse pequenas pinceladas no céu. Estreitou os olhos para conseguir enxergar a bola de fogo que se erguia lá longe, e olhou o mar novamente. Estava calmo, maré baixa, mas mesmo assim repleto de pequenas ondas que se quebravam lá longe, nas rochas. Poucas chegavam à areia. Esperou por mais uma que viesse refrescar seus pés. Elas, no entanto, tímidas e sapecas, espreitavam e esticavam-se até bem próximo aos seus pés sem tocá-los, e voltavam para seu lugar rapidamente. A menina então, como que para não assustá-las, cautelosamente deu um pequeno passo à frente com o pé esquerdo  e esperou. Um pequeno pedaço de mar chegou vagarosamente e tocou seu pé de leve, fugaz, e logo voltou. Decidida, Anita deu dois passos grandes, agora ela mesma tocando a água. Satisfeita, fechou os olhos novamente, sentindo o suave calor do sol em seu rosto. A areia abaixo de seus pés, macia, começava a aquecer. Inspirou o ar puro da praia, sentindo o cheiro do sal, da areia; cheiro de praia; segurou por três segundos em seus pulmões, sentindo-se viva, e soltou devagarinho, saboreando cada pedacinho de ar que saía.
   Ela sentia os quatro elementos juntos: o mar, a areia, o sol e o ar. E nada mais importava. Como se todos os seus problemas tivessem ido embora com as ondas. Que importavam as brigas dos pais, o aluguel atrasado e as dificuldades no colégio? Ela estava na praia e estava vivendo. Em contato com a natureza e sentindo a presença divina, que importava o resto? O sol que aquecia sua pele, o mar que a refrescava, a areia que acomodava e o vento que brincava. Abrindo os braços, ergueu a cabeça e abriu novamente os olhos, olhando o límpido céu que agora estava totalmente azul, com poucas nuvens brancas que pareciam pequenas ovelhas brincando. Ela podia sentir a natureza e podia ver. O oceano agora verde-esmeralda, o céu azul, o sol amarelo, as nuvens brancas, a brisa, a água, a areia... E então sorriu. Estava viva.